#EconomiaCircular: ReCoopera que tornar-se num “pólo dinamizador” da para toda a cidade de Lisboa

#EconomiaCircular: ReCoopera que tornar-se num “pólo dinamizador” da para toda a cidade de Lisboa

A Economia Circular está, hoje, subjacente em muitas empresas. Produtos sustentáveis, amigos do ambiente e com um ciclo de vida longo são, cada vez mais, uma opção. Há também quem ponha em prática estes conceitos e desenvolva os seus próprios produtos. Com o objetivo de dar “voz” a projetos de cariz sustentável, a Ambiente Magazine irá, todas as semanas, apresentar algumas iniciativas aos nossos leitores e dar a conhecer o que se faz em Portugal nesta área. Esta semana, partilhamos o projeto “ReCoopera”.

Luís Keel Pereira

Chama-se “ReCoopera: espaço comunitário para aprender, reparar, partilhar e doar” e surgiu de um levantamento de ideias para o bairro de Telheiras que a Parceria Local de Telheiras (PLT) promoveu junto da população. Neste processo, tal com explica Luís Keel Pereira, coordenador da PLT, que se designa “Ideias em Rede”, os telheirenses propuseram “várias atividades ligadas à sustentabilidade” que poderiam ser implementadas pelos cidadãos, sociedade civil organizada e poder local de forma articulada. Após este levantamento, refere o responsável, “a PLT desafiou a população a votar nas ideias que consideravam mais prioritárias”, sendo que, entre as mais votadas, encontrava-se a proposta que veio a tornar-se o ReCoopera. Em seguida, continua Luís Keel Pereira, formou-se um “grupo de trabalho composto por representantes de entidades que pertencem à PLT e por cidadãos a título individual”, que concretizou a proposta que vinha das “Ideias em Rede” numa candidatura ao “Orçamento Participativo de Lisboa”. Relativamente ao projeto em si, o coordenador da PLT afirma que o ReCoopera quer criar em Telheiras um “espaço de partilha de saberes teóricos e práticos, vibrante, aberto a toda a cidade, onde juntos vamos promover um estilo de vida mais sustentável através da reparação e reutilização”. Já a atividade central, centrar-se-á na “realização de um encontro mensal” onde será possível “aprender a reparar e reutilizar produtos em áreas” como “eletrodomésticos, informática ou eletrónica, costura e bicicletas”, recorrendo a conhecimentos da própria população sempre que possível, acrescenta.

Desenhado por um grupo de trabalho composto por cidadãos a título individual e representantes de algumas organizações da PLT, este projeto surge no âmbito de um “trabalho mais alargado de promoção da sustentabilidade a nível local”, desenvolvido pelo grupo de trabalho “Telheiras Sustentável”, que reúne mais de 25 membros: “A PLT é uma rede que reúne várias organizações do bairro de Telheiras para partilha de recursos e informações, desenvolvimento de projetos em parceria, apoio mútuo e organização conjunta de eventos”, explica. Das entidades envolvidas na criação do ReCoopera, destaca-se o Centro Comunitário de Telheiras da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, Associações de Pais das escolas locais e a associação Sempre Ligados.

Um espaço da comunidade que responde ativamente às suas necessidades e desejos

Miguel Macias Sequeira

No que diz respeito à vertente ambiental, Miguel Macias Sequeira, engenheiro do Ambiente e morador de Telheiras, destaca que o ReCoopera apoia-se principalmente no “conceito de economia circular”, onde os bens e produtos são “partilhados, reutilizados, reparados, renovados e reciclados” tanto quanto possível: “Ao aumentar o tempo de vida dos produtos e fechar o ciclo dos materiais, diminui-se o consumo de matérias-primas e a produção de resíduos, que devem ser vistos como novos recursos e não apenas resíduos”. Também, a “extração de recursos e o seu processamento em bens de consumo rápido e generalizado” contribuem fortemente para “inúmeros problemas ambientais e sociais”, como as alterações climáticas, perda de biodiversidade e poluição”, acrescenta. Adicionalmente, destaca Miguel Macias Sequeria, “o não aproveitamento dos fluxos de resíduos é um enorme desperdício”, que gera “os próprios impactes ambientais” e “aumenta a pressão nas cadeias de abastecimento de matérias-primas virgens”. Sedeado no bairro de Telheiras, mas aberto a toda a cidade de Lisboa, o ReCoopera procurará assim “contribuir para a disseminação do modelo de economia circular” em produtos variados: “Sendo um espaço de aprendizagem, uma das suas grandes vantagens é poder ter um efeito multiplicador em que os conhecimentos sobre reparação e reutilização são transmitidos e ampliados dentro da comunidade”. Outra componente do projeto, destacada pelo engenheiro ambiental, é o “espaço dedicado a aconselhamento e apoio sobre eficiência energética e energias renováveis”, com o objetivo de “informar e capacitar a comunidade sobre medidas, apoios financeiros e regulamentos relevantes para melhorar o desempenho energético e conforto térmico das suas habitações e do comércio local” e para “produzir e utilizar energia renovável localmente”. Neste caso, o objetivo está enquadrado no âmbito de uma “transição energética sustentável, justa e inclusiva” que permita “mitigar o problema global das alterações climáticas” e “combater o fenómeno de pobreza energética”. A isto acresce que a “abordagem ao nível do bairro é particularmente positiva na área da energia”, refere, destacando que “podem ser criadas sinergias na comunidade para a produção de eletricidade renovável, renovação do edificado e democratização do sistema energético”. Por fim, a iniciativa, que quer ser um “espaço da comunidade e responder ativamente às suas necessidades e desejos”, incluirá ainda “workshops temáticos sobre sustentabilidade”, por exemplo sobre temas como “desperdício alimentar, compostagem e mobilidade suave”, adianta.

Local de incubação de novas ideias e projetos para Telheiras e para Lisboa

Tratando-se de um projeto que foi candidatado ao “Orçamento Participativo de Lisboa”, os vencedores só serão anunciados mais perto do final do mês de junho. Ainda assim, desde a “ideia embrionária do projeto”, à “criação do grupo de trabalho que o concretizou numa proposta específica e que terminou, para já, na campanha de divulgação feita para apelo ao voto no ReCoopera”, Luís Keel Pereira constata que a iniciativa tem já dado “frutos interessantes”. Em primeiro lugar, toda a dinâmica comunitária de criação conjunta do projeto levou ao “fortalecimento de relações de vizinhança”, ao mesmo tempo que “criou um espaço de diálogo e partilha que levou já ao surgimento de outras ideias” para desenvolver no futuro. E, em segundo lugar, “a campanha de divulgação para a fase de votação do Orçamento Participativo permitiu sensibilizar fortemente a população local para a importância de projetos relacionados com a sustentabilidade”, neste caso na área da Economia Circular, e da importância de “todos adotarmos hábitos que nos levem a ter um estilo de vida mais sustentável”, destaca.

Apesar de ainda ser cedo para se falar no futuro, visto que os resultados ainda não são conhecidos, o coordenador da Parceria Local de Telheiras assegura que serão exploradas outras hipóteses de se conseguir a implementação do ReCoopera, procurando nomeadamente outras fontes de financiamento. De qualquer das formas, aquilo que pretendem uma vez que o projeto esteja em funcionamento, é que se torne um “pólo dinamizador” da Economia Circular para toda a cidade de Lisboa: “O ReCoopera não será apenas um espaço onde se desenrolam as atividades que estão previstas, mas será um espaço comunitário, de encontro e de partilha de saberes e conhecimentos”. Por isso, pretendem criar à volta da iniciativa uma “comunidade ativa e vibrante”, que ajude a construir o futuro do projeto em pareceria. Desta forma, Luís Keel Pereira acredita que o projeto terá certamente um “grande impacto ao nível da sensibilização da população para a importância da adopção de hábitos mais sustentáveis”, ao mesmo tempo que “fornecerá conhecimentos e ferramentas para que as pessoas possam fazer estas mudanças nas suas vidas”. Além disso, o ReCoopera será um “local de incubação de novas ideias e projetos para Telheiras e para Lisboa”, através de toda a dinâmica criada à sua volta, afinca.

As fontes renováveis também têm impactes ambientais e sociais negativos

Questionados sobre a economia circular é já uma realidade em Portugal, Miguel Macias Sequeira reconhecer que o conceito é cada vez mais falado, mas que existe ainda um “longo caminho” a percorrer para se tornar uma realidade: “O modelo económico consumista e linear está enraizado na sociedade e as barreiras para quem tenta, por exemplo, reparar um eletrodoméstico, são muitas vezes mais complexas do que a simples compra de um novo equipamento”. Apesar de terem sido dados alguns passos positivos, nomeadamente à escala da União Europeia, com obrigatoriedades no “ecodesign” e a “certificação de produtos”, o engenheiro ambiental atenta na necessidade de se garantir, “na fase de conceção de um produto”, a possibilidade da “reparação e reutilização (o chamado direito à reparação)”, bem como a “facilitação da reciclagem dos seus componentes”. Em Portugal, mesmo com “progressos nas últimas décadas e uma aposta forte na sensibilização da população”, existe ainda muito a fazer em relação à separação e reciclagem de resíduos: “O país falhou parte das suas metas de prevenção e gestão de resíduos urbanos para 2020, acordadas com a União Europeia”. Aliás, “na cidade de Lisboa, a recolha seletiva de materiais recicláveis (ou compostáveis) ainda representava em 2018 menos de 25% dos resíduos da cidade”, atenta.

Em relação às temáticas das alterações climáticas e transição energética, Portugal tem procurado estar na “linha da frente”, como é o caso do investimento em energias renováveis. Embora esta aposta seja muito positiva, Miguel Macias Sequeira nota que é fundamental que seja acompanhada por uma “perspetiva mais holística de sustentabilidade e não meramente por substituições tecnológicas”, sendo que “as fontes renováveis também têm impactes ambientais e sociais negativos”, cuja minimização deve ser uma “peça central na implementação dos projetos”.

Na visão do engenheiro ambiental, a economia circular deve ser fortemente apoiada de “forma transversal” em todos os setores económicos, garantindo um “real aproveitamento” dos fluxos de resíduos gerados: “Existem vários instrumentos políticos que podem ser utilizados para este fim, desde obrigatoriedades de incorporação de materiais reciclados em novos produtos e taxas mais elevadas para a deposição de resíduos em aterros sanitários a campanhas mais intensivas de sensibilização de cidadãos e empresas”. Por isso, o “direito à reparação” deve tornar-se uma “exigência” e, se necessário, “apoiado para garantir a competitividade face à compra de novos produtos”, defende. À escala urbana, um passo prioritário é sem dúvida a “desvinculação da taxa de resíduos urbanos da fatura da água”, sendo necessária uma “real contabilização e faturação dos resíduos produzidos por tipologia e por agregado familiar”, de forma a “distribuir os custos do tratamento dos resíduos” de forma justa: “Este será também um forte incentivo para reduzir o volume da produção de resíduos e aumentar a taxa de separação seletiva e encaminhamento para reciclagem”.

Já sobre a transição energética, o responsável defende uma “aposta política muito mais declarada e eficaz na eficiência energética e mobilidade sustentável”, que permitirá “mitigar alguns dos problemas causados pela implementação massificada de fontes de energia renováveis”. A prioridade deve estar, assim, na “renovação do edificado para reduzir grandemente as suas necessidades energéticas” ao mesmo tempo que se “descarboniza e se alivia a pobreza energética”, vinca. Também, uma mobilidade realmente sustentável não poderá basear-se apenas na “substituição do automóvel” com “motor de combustão pelo automóvel elétrico”. Aliás, isso não iria resolver os problemas da “sinistralidade rodoviária” e “ocupação do espaço urbano: iria criar novos, diferentes, conflitos de extração de recursos”. Consciente que o automóvel elétrico vai desempenhar um papel importante, Miguel Macias Sequeira defende que uma mobilidade verdadeiramente sustentável deverá “priorizar os transportes suaves, públicos e partilhados”.

Relativamente ao futuro, o engenheiro ambiental quis deixar um alerta:

Temos de reconhecer que vivemos hoje numa sociedade profundamente insustentável com múltiplos conflitos sociais e ambientais derivados das atividades humanas. O modelo económico atual – extrativista, consumista e linear – não tem futuro e tem de ser repensado. Seja qual for o novo paradigma, vários conceitos em formulação como economia circular e partilhada, eficiência de recursos, suficiência e decrescimento deverão ter um papel importante a desempenhar. Grande parte desta transformação apenas será possível com ações globais concertadas. No entanto, existe também muito que se pode fazer à escala local, onde se perspetiva o possível aparecimento de bairros e cidades líderes em sustentabilidade.

Cristiana Macedo