Um novo estudo científico liderado por investigadores portugueses concluiu que a esmagadora maioria dos ecossistemas de água doce na Europa apresenta necessidades de restauro, revelando um cenário considerado preocupante para o cumprimento das metas ambientais europeias.
O trabalho, publicado na revista científica Global Change Biology, foi coordenado por investigadores do Centro de Estudos Florestais (CEF), da Universidade de Lisboa, integrados no Laboratório Associado TERRA, e contou com a participação de cientistas de Portugal, Áustria, Dinamarca e Alemanha.
Segundo os resultados, menos de 5% das unidades fluviais analisadas cumprem simultaneamente os objetivos das duas principais diretivas ambientais da União Europeia: a Diretiva Habitats e a Diretiva-Quadro da Água.
A análise revela que cerca de 89% das áreas estudadas apresentam habitats de água doce em estado de conservação desfavorável; mais de 55% registam espécies igualmente em estado desfavorável; aproximadamente 46% não atingem o “Bom Estado Ecológico” exigido pela legislação europeia da água.
No total, mais de 94% das unidades fluviais europeias evidenciam necessidades de restauro associadas a pelo menos uma das diretivas.
Nova metodologia permitiu mapear a “dívida ecológica”
Pela primeira vez à escala europeia, a equipa utilizou uma unidade de análise espacial designada River Restoration Units (R2U), que integra dados de biodiversidade e qualidade ecológica ao nível da rede hidrográfica, respeitando a estrutura funcional dos rios.
Esta abordagem permitiu harmonizar informação proveniente de diferentes fontes oficiais e identificar padrões claros de degradação no continente. Os investigadores descrevem um gradiente europeu em que os habitats surgem como o componente mais degradado, seguidos das espécies e, por fim, do funcionamento ecológico avaliado ao abrigo da Diretiva-Quadro da Água.
De acordo com os autores, este padrão poderá refletir um processo sequencial: a degradação dos habitats antecede a perda de biodiversidade e, mais tarde, compromete a estabilidade e o funcionamento dos ecossistemas. Este fenómeno é descrito na literatura científica como “dívida de extinção” e “dívida de estabilidade”, conceitos que ajudam a explicar impactos ecológicos que se manifestam com atraso temporal.
Apoio à nova Lei do Restauro da Natureza
O estudo surge numa fase decisiva para a política ambiental europeia, marcada pela entrada em vigor do novo Regulamento Europeu do Restauro da Natureza.
Os investigadores defendem que os resultados fornecem uma base científica sólida para apoiar a implementação da nova legislação, ao identificar de forma explícita onde as necessidades de restauro são mais urgentes e onde a intervenção poderá gerar maiores benefícios ecológicos.
Apesar de décadas de políticas ambientais, sublinham os autores, a degradação dos ecossistemas de água doce permanece generalizada na Europa. Ainda assim, consideram que existe uma janela de oportunidade: uma aplicação ambiciosa e coerente das políticas de restauro poderá travar a acumulação da chamada “dívida ecológica” e inverter as atuais trajetórias de perda de biodiversidade.






































