Joaquim Poças Martins: “Não é possível haver sistemas com 80% de perdas de água e que não melhoram há dez anos”

Joaquim Poças Martins: “Não é possível haver sistemas com 80% de perdas de água e que não melhoram há dez anos”

Categoria Águas, Ambiente

Joaquim Poças Martins, engenheiro e professor da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), foi o orador convidado para falar na primeira Sessão Especial do 15.º Congresso da Água promovido pela APRH (Associação Portuguesa dos Recursos Hídricos). Subordinada ao tema “Política da Água em Portugal no contexto da Região Norte”, o engenheiro iniciou o seu discurso felicitando o setor da Água e todos os profissionais envolventes: “Tem havido muitos mais problemas noutros setores do que propriamente na Água e isso quer dizer que temos conseguido evitar que os problemas tenham sido mais graves”. E a prova disso é que, em plena pandemia, a água continua a chegar às torneiras dos portugueses: “A população deve estar grata ao setor da Água e seus profissionais em não haver um problema de água em cima de um problema de pandemia”. A isto acresce o papel das instituições como a APRH e similares que, ao longo dos últimos anos, também têm promovido “ações articuladas” são uma mais valia: “É importante destacar este traço de união no setor”, vinca.

Pela positiva, está também a “continuidade de políticas” que tem havido no setor da Água, desde há 20 ou 30 anos, algo que é “raro” em Portugal: “Na vida pública, vemos governos a dizer mal dos anteriores e o mesmo acontece nas instituições”. Já no setor da Água, Joaquim Poças Martins destaca que, desde os anos 90, o modelo adotado tem resistido no tempo: “Mudaram governos de várias cores, mas felizmente não foi interrompido o plano de investimento e nem foram descontinuadas políticas importantes”.

Há duas palavras que na visão do docente da FEUP podem mudar pela  positiva a forma como se lida com a água: a reutilização e a dessalinização: “Sem estas duas novas origens penso que não podíamos ser otimistas relativamente ao futuro”.

O preço da água tem que ser articulado politicamente

Olhando para os aspetos menos positivos, Joaquim Poças Martins não compreende o preço da água: “Continuando a ter água gratuita, a gestão é impossível: a abundância usufrui-se, a escassez gera-se. Temos usufruído em demasiado a água e, enquanto houver água de borla, ninguém vai reutilizar”. Para o engenheiro, “não há qualquer política de reutilização que tenha qualquer hipótese de sucesso se houver uma alternativa a preço zero”, pelo que “preocupa-me situações que vão ocorrer com mais frequência relacionadas com a repartição de água em situações de escassez”. É certo que o “preço da água é extremamente sensível”, mas “não pode existir um discurso sobre a escassez ou sobre a sua importância” e, no final, cada um tira a que quer: “Não conseguimos poupar, gerir e evitar o desperdício enquanto não atacarmos de frente o preço da água e temos sido excessivamente delicados sobre esta matéria”, sustenta.

A “eficiência” é um outro tema que merece ser chamado a atenção: “As políticas medem-se por resultados e estamos cansados de ouvir teorias sobre a eficiência da água e continuamos a ter regra por aspersão ao meio dia no Alentejo em que nenhuma gota de água chega à raiz das plantas”, alerta. E, onde não há água, atenta Joaquim Poças Martins, Portugal corre o risco de ter de adotar um “modelo semelhante ao de Espanha de grande artificialização”, algo que, em 2021 não se admite: “Não faz sentido nenhum estarmos a evoluir para criar necessidades onde não há água e depois ir buscar água aqui ou ali”. Mais uma vez, o “preço da água tem que ser articulado politicamente”, defende, ressaltando que “a água é um fator de produção e tem que ter um valor”.

Algo que para Joaquim Poças Martins parece ser impossível de aceitar são as perdas de águas nos sistemas públicos de abastecimento: “Estamos em 2021 e não é possível haver sistemas com 50, 60, 70 e 80% de perdas e que não melhoram há dez anos”. Este é um problema que não se resolve com “cadastros” ou com “formação”, diz, constatando que as perdas de água reduzem-se num espaço de tempo de um ou dois anos: “Se isso não acontece é porque não há condições ou não se sabe”, afinca. Nestas matérias, o docente concorda com a existência de incentivos para as melhorias, mas reclama pela necessidade de existir penalidades: “Não é possível continuar esta situação que enfraquece a posição da exportação do know-how português de alguma experiência que temos no mundo”.

Não é possível em 2021 haver sistemas mal geridos

Com os olhos no futuro, Joaquim Poças Martins chamou ainda a atenção para um problema muito maior e mais grave do que a pandemia da Covid-19: as alterações climáticas. No que diz respeito à água, o engenheiro não tem dúvidas de que a solução passa pela realização até à potabilização: “Hoje em dia, que tem 50 cêntimos por metro cúbico não tem falta água”. Depois, além de resolver o problema da falta de água, combate a poluição: “Se nas cidades e indústrias reutilizarmos a água acabamos com dois problemas: nunca mais falta água e nunca mais há poluição”, reforça. Já num cenário mais pessimista, o docente destaca uma outra solução: “Se tudo falhar, ainda há alguma água no mar e sabemos que em termos de engenharia há soluções para ir lá buscar essa água e transformá-la em água potável”.

Na visão de Joaquim Poças Martins, o caminho vai no sentido da naturalização: “Termos uma engenharia muito mais sofisticada e de perceber bem a Natureza e conviver com ela”. Para o docente, vai haver uma instauração de transição: “Acredito que as barragens que foram feitas para fins hidrelétricos, vão poder ser reutilizadas para outro tipo de fins e evitar que se façam mais. Acredito que ainda vou conseguir estar numa casa que seja autónoma do ponto de vista de água”.

Face a uma experiência enriquecedora no setor da Água, Joaquim Poças Martins deixa uma mensagem final: “Há sempre soluções interessantes e diferentes. Mas, agora falta-me já a paciência para a incompetência, para a queixa reiterada ou para os 80% de perdas ao fim de dez anos. Não é possível em 2021 haver sistemas mal geridos. Têm que ter uma dimensão adequada”.

15.º Congresso da Água começou no dia 22 de março (segunda-feira) e termina no dia 26 de março (sexta-feira). Subordinado ao tema “Para uma política da água em Portugal – o contributo da APRH”, o evento decorre em formato online.

Cristiana Macedo