Por Aroa Ruzo, Country Manager Portugal, Schneider Electric
O Dia Mundial da Eficiência Energética (5 de março) chega, este ano, num momento paradoxal. Por um lado, Portugal consolidou‑se como uma das referências europeias na integração de renováveis – até novembro de 2025 a quota renovável na produção elétrica rondava os 75%. Por outro, o sistema elétrico começa a sentir a pressão de novas cargas – Data Centers, mobilidade elétrica, bombas de calor… –, que crescem mais depressa do que a capacidade de licenciar e construir novas redes e novas instalações de produção. A questão que se coloca já não é tanto “como geramos energia limpa?”, mas muito mais “o que fazemos com a energia que já temos?”.
Uma parte importante da resposta está escondida à vista de todos: nos edifícios. Em Portugal, o setor dos edifícios (residencial e serviços) representa cerca de 30% do consumo final de energia, mas seria possível reduzir mais de metade deste consumo com medidas de eficiência bem desenhadas, sem sacrificar o conforto dos ocupantes nem a qualidade do ar interior. Em termos simples: existe uma “central elétrica virtual” – distribuída por escolas, hospitais, escritórios, lojas e casas – que continua largamente por ativar.
Ao mesmo tempo, a produção de energia renovável não tem parado de crescer. Em pouco mais de uma década, a geração solar fotovoltaica multiplicou‑se, passando de algumas centenas de gigawatt‑hora anuais para vários milhares. Ainda assim, continuamos a desperdiçar uma fração significativa dessa energia em sistemas de climatização mal calibrados, iluminação que permanece ligada quando não é necessária e equipamentos que funcionam em horários desajustados face à exigência real. Cada quilowatt-hora evitado num edifício contribui para libertar capacidade que pode alimentar Data Centers, carregar frotas de veículos elétricos ou reduzir a importação de combustíveis fósseis.
Transformar o potencial em realidade
A boa notícia é que as tecnologias necessárias para transformar este potencial em realidade já existem e estão suficientemente maduras: por exemplo, sistemas de gestão técnica centralizada, sensores que detetam a ocupação, soluções de automação da climatização e iluminação, medição inteligente e plataformas digitais que “aprendem” como o edifício é realmente utilizado. Em vez de programações fixas e estáticas, estes sistemas ajustam em tempo real consumos à ocupação, ao clima e, cada vez mais, à própria rede elétrica.
A diferença face à eficiência “clássica” é o nível de inteligência e de orquestração envolvidas. Em vez de ganhos marginais ao longo de anos, a combinação de dados, automação e algoritmos permite libertar rapidamente potência que, na prática, funciona como nova capacidade instalada. Em edifícios comerciais, não é incomum conseguir alcançar reduções de 20% ou mais no consumo de energia através da digitalização da operação, com períodos de retorno que muitas vezes se situam entre dois e cinco anos – competitivos face a qualquer investimento de capital tradicional.
Claro que a eficiência não elimina a necessidade de adicionar nova geração renovável ou reforçar as redes existentes; contudo, vem alterar a ordem das prioridades. Num contexto em que os projetos de produção podem demorar anos até serem licenciados e ligados à rede, aproveitar o desperdício energético que já existe nos edifícios é, provavelmente, a forma mais rápida e económica de aliviar a pressão sobre o sistema. Ao mesmo tempo, reforça a competitividade das empresas, reduz a fatura das famílias e contribui para a consecução das metas de descarbonização nacionais e europeias.
Uma mudança de paradigma muito necessária
Para que esta visão saia do papel, no entanto, é preciso mudar a forma como olhamos para o ciclo de vida dos edifícios. Durante décadas, o foco esteve no custo inicial da construção ou reabilitação, quando se sabe que esse valor representa apenas uma parte do custo total ao longo da vida útil do ativo. Quando se incorpora no cálculo o custo de operação, a resiliência face a picos de procura (e, consequentemente, preço) e a exposição a futuras exigências regulatórias, os investimentos em eficiência energética e digitalização deixam de ser um “extra” e passam a ser uma garantia de futuro.
Portugal tem, aqui, uma oportunidade clara. A reabilitação urbana, os programas públicos de apoio e o quadro regulatório europeu para edifícios de emissões quase nulas criam o contexto certo para acelerar esta transformação. No entanto, será a forma como integrarmos eficiência, energias renováveis e inteligência digital nos edifícios existentes que vai determinar se continuaremos a correr atrás da procura, ou se passaremos finalmente a utilizar melhor a energia que já produzimos.
Neste Dia Mundial da Eficiência Energética, a mensagem é simples: antes de discutirmos o que vamos construir no futuro, devemos olhar para o que já existe e já está ligado à rede. A capacidade mais rápida e mais limpa que podemos mobilizar é a que está escondida na infraestrutura que utilizamos todos os dias – e que, com as tecnologias certas, pode deixar de ser parte do problema para se tornar parte central da solução.






































