Por Sónia Pereira, Gestora de Sustentabilidade da Yunit Consuilting
As pequenas e médias empresas (PME) representam a esmagadora maioria do tecido empresarial europeu e geram uma parte significativa do valor económico na União Europeia. No entanto, quando analisamos a transição energética e a transformação digital, deparamo-nos com um paradoxo preocupante: apesar de serem fundamentais para a inovação, a adoção de investimentos estruturados em sustentabilidade continua a ser limitada.
Num contexto global marcado por instabilidades geopolíticas, volatilidade nos mercados de energia e pressão sobre as cadeias de abastecimento, a capacidade de otimizar recursos e processos tornou-se uma força silenciosa com impacto direto na competitividade.
O alicerce para a transformação: eficiência operacional e sustentabilidade
A excelência na gestão de recursos não é um fim em si mesmo. É o catalisador que liberta capital e tempo para tomar decisões mais ambiciosas e estratégicas. Ao eliminar redundâncias, uma empresa cria o espaço financeiro necessário para: investir em inovação, convertendo margens recuperadas em capacidade efetiva de apostar em investigação e desenvolvimento; em digitalização, através de processos mais ágeis que permitem implementar automação, IoT e inteligência artificial; e em produtividade, fazendo mais com menos e aumentando o valor acrescentado de cada hora trabalhada. Esta robustez interna é uma defesa eficaz contra condicionantes externas, reduzindo a necessidade de importações críticas e fortalecendo a resiliência das cadeias de valor locais.
A realidade do tecido empresarial: o desafio das PME
Segundo os dados mais recentes do Eurostat, as PME compõem 99,8% do ecossistema empresarial europeu, no entanto, estudos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e do Banco Europeu de Investimento (BEI), revelam que a eficiência, especialmente a energética e a digital, continua a ser um tema negligenciado pela maioria destas entidades.
Muitas PME continuam a operar com base em modelos tradicionais, nos quais, a falta de escala e de literacia técnica impede a identificação de desperdícios. Fontes como o SME Performance Review indicam que a diferença de produtividade entre as grandes empresas e as PME deve-se, largamente, à subutilização de tecnologias que promovem a eficiência. Na prática, a eficiência energética e a modernização tecnológica são, cada vez mais, alavancas diretas de competitividade. Ao combinarem eletrificação e digitalização, as PME conseguem identificar perdas, ajustar consumos em tempo real e priorizar investimentos com retorno mensurável.
Cada quilowatt-hora poupado é capital que permanece na empresa e que pode ser canalizado para inovação, qualificação de equipas, melhoria do produto e expansão do negócio.
Diagnóstico: do instinto à decisão
A máxima “apenas o que se mede pode ser gerido” tornou-se regra de sobrevivência. A utilização de ferramentas de diagnóstico e métricas claras é essencial para transitar de uma gestão baseada no instinto para uma estratégia fundamentada em dados concretos.
Sem dados sobre consumo energético, fluxos de materiais e eficiência de processos, as empresas caminham às cegas. Neste contexto, o Relatório de Sustentabilidade (ao abrigo da diretiva CSRD para as grandes empresas, mas cada vez mais adotado voluntariamente pelas PME) deixa de ser uma mera obrigação de conformidade regulatória para se afirmar como uma verdadeira ferramenta de gestão estratégica
Ao sistematizar e analisar informação crítica, este instrumento permite expor ineficiências ocultas ao longo da cadeia de valor, disponibilizar dados auditáveis e credíveis que facilitam o acesso a financiamento verde e reforçar a confiança de clientes e parceiros, cada vez mais exigentes em termos de transparência e responsabilidade ética. Ao medir, comunicar e agir com base nesses dados, o tecido empresarial europeu não só se protege melhor contra choques e incertezas externas, como constrói uma vantagem competitiva sustentada na inteligência, eficiência e sustentabilidade, criando as condições para que a sua vasta rede de pequenas e médias empresas se afirme como um verdadeiro motor de vanguarda à escala global.
Por onde começar?
Para as PME que pretendem liderar esta mudança, o caminho começa com passos concretos e estruturados, assentes numa lógica de pragmatismo e impacto. O primeiro passo consiste num diagnóstico rigoroso, que permite identificar e monitorizar os principais indicadores e os processos menos eficientes e com mais desperdício. A partir daí, é essencial definir um plano que estabeleça etapas realistas de implementação, de acordo com a capacidade financeira e operacional da empresa. Em paralelo, a exploração de modelos e parcerias adequados, desde soluções tecnológicas até instrumentos de financiamento e colaboração com parceiros especializados, permite reduzir o risco, acelerar o retorno do investimento e garantir uma transição mais segura e sustentável.
A transição energética e a sustentabilidade empresarial não devem ser encaradas como um fardo ou uma imposição externa, mas sim como uma oportunidade concreta de modernização, de aumento da eficiência e de reforço da competitividade europeia. Desta forma, as PME não estão apenas a responder a exigências regulamentares ou de mercado: estão a construir operações mais ágeis, mais produtivas e mais resilientes, preparadas para enfrentarem um contexto económico cada vez mais exigente e volátil.







































