#Valorpneu:  Portugal tem de pensar “fora da caixa” e comunicar as suas inovações

#Valorpneu:  Portugal tem de pensar “fora da caixa” e comunicar as suas inovações

Como habitual, a Valorpneu junta todos os anos vários especialistas para debater as questões centrais sobre quais as melhores soluções para os pneus em fim de vida. Desta vez, foi sobre “A Inovação do Setor” que se debruçou este 19.º Encontro da Valorpneu. O encontro aconteceu na passada terça-feira, dia 23 de novembro, em formato híbrido, sendo que o Grande Real Villa Itália Hotel & Spa, em Cascais, foi palco de mais uma edição.

Dando início ao debate, Climénia Silva, diretora-geral da Valorpneu, começou por lembrar que, desde que a Valorpneu começou com a sua atividade, a entidade tem-se diferenciado  pelas atitudes que vai tomando e pelos desafios que vai enfrentando. Exemplo disso foi quando constituiu, em 2002, o seu modelo de funcionamento do sistema, algo que ainda não existia: “Rapidamente, deu muitas bons resultados com níveis de recolha elevados e taxas que iam além da responsabilidade que tinha sido transferida para a Valorpneu pelos produtores de pneus”. Em 2005, após várias tentativas malsucedidas, a Valorpneu conseguiu arranjar “soluções para os pneus de grandes dimensões”, desviando os mesmos do aterro, refere a responsável, recordando que, só no ano passado, esta tipologia de pneus caiu no âmbito das entidades gestoras nacionais. A inovação é algo que já há muitos anos faz parte do ADN da entidade: “Em 2008, lançou o Prémio Inov, quando ainda muito pouco se ouvia falar em economia circular e, nessa altura, o objetivo assentava em encontrar soluções para os materiais finais da reciclagem de pneus”. Desta forma, envolveram-se “academias, laboratórios e outras instituições para arranjar soluções para a problemática”, explica a responsável, acrescentando que, após as sete edições, percebeu-se a importância de se envolver também as empresas e a comunidade e, assim, “desenhar um modelo de negócio diferente”, onde o “empreendedorismo” pudesse ser fomentado: “Há muitas ideias e conceções, mas colocar na prática é mais difícil”. Por isso, em 2016, partindo da base do Prémio Inov, surge o Prémio Inov.ação que permite à “ideia verde” sair do papel, abrindo caminho para que projetos com potencial possam beneficiar do know-how de um leque alargado de parceiros de diferentes setores de atividade e que se unem em torno desta iniciativa. Mais recentemente, em 202, e continuando na lógica da inovação, surge o NextLap: “O foco é concretizar as soluções para os pneus e desenvolver novos produtos que estejam prontos para entrar no mercado”, afirma.

Pensar “fora da caixa”

O NextLab conta com as parcerias da Genan e Beta-i, cabendo a esta última a gestão dos projetos: “Identificamos as empresas de vários setores no mercado que poderiam ter interesse em trabalhar as soluções do pneu em fim de vida útil, seja o pneu inteiro fragmentado, seja os derivados da reciclagem do pneu”, começa por explicar Ana Ferreira, consultora da Beta-i, acrescentando que, após esse primeiro passo, “vamos à procura dos inovadores”, sejam “startups, projetos académicos ou empresas”. Depois, é feito o “encontro entre as soluções candidatas ao programa e as oportunidades”, isto é, o “concretizar as ideias”. Além de ser um projeto “desafiante”, Ana Ferreira reconhece que foi “muito interessante”, destacando que a “economia circular” está intrínseca desde o início: “Este programa não faria sentido, se não olhássemos para os desafios numa ótica de cadeia de valor”. E as empresas que representam vários setores, “desde o retalho, o automóvel até à construção”, não conseguem sozinhas validar a integração de um solução inovadora na cadeia de valor: “Para termos a certeza que uma solução é aplicada no mercado, temos de trabalhar, desde o provedor de matéria-prima ao transformador, do distribuidor até ao consumidor final”. O NextLap é a possibilidade de se criar um “ecossistema” que seja ideal para o desenvolvimento destas soluções, afirma.  

Através deste projeto, Ana Ferreira afirma que é possível comprovar-se que a qualidade dos produtos reciclados é muito boa, sendo que a “reciclagem e os componentes derivados da reciclagem do pneu” promovem claramente a inovação. No entanto, há desafios, nomeadamente ao nível do “conhecimento do mercado e do espírito de curiosidade” de perceber como produtos reciclados podem ser incorporados nos vários setores. E no que há regulamentação diz respeito, a consultora afirma que pode ser um “aspeto limitador”, não só aos pneus em si mas também a todos os temas de economia circular: “Por isso, nos programas, convidamos reguladores para assistir”. Olhando aos pneus, a consultora verifica que há “alguma dificuldade em pensar fora da caixa”, assim como “pouca motivação sobre a possibilidade de incorporar produtos reciclados dos pneus” em setores que podem fazê-lo com maior facilidade: “Existe ainda muita limitação”. E Portugal, apesar de ser um país pequeno, incorpora muita matéria-prima: “Os projetistas ainda não sentem a obrigação de arranjar soluções e recorrer aos materiais reciclados”. O mesmo não acontece na Holanda, por exemplo, que, segundo a responsável, tratando-se um país com menos matéria-prima, os projetistas estão muito mais motivados. O tema da reciclagem de pneus em fim de vida útil deve assentar, essencialmente, em passar segurança para o mercado e para as empresas de testarem: “As empresas de qualquer setor que tenham interesse em perceber como podiam incorporar os materiais reciclados dos pneus, podem fazê-lo com toda a segurança seja regulamentar, seja operacional: a solução é tomada a posteriori se aquela solução é viável de se incorporar no negócio”. Tão importante é comunicar e consciencializar para a utilização do pneu em fim de vida útil: “É uma necessidade de parar e refletir sobre os produtos que podem ser reintroduzidos na nossa economia”.

Por seu turno, Fernanda Dias, diretora-geral da DGAE (Direção-Geral das Atividades Económicas), parece não concordar com o facto das empresas, em Portugal, não estarem motivadas sobre as soluções para os pneus em fim de vida útil, acreditando que o problema está na “pouca eficiência” em promoverem os seus produtos: “Temos de ser capazes de mostrar que fazemos muito bem e que não haja preconceito de achar que em Portugal o produto tem menor qualidade”. E o repto é mesmo o de “pensar fora da caixa”, mas, ao mesmo tempo, “dar a conhecer” o que se faz em Portugal. 

Na visão da responsável, a inovação e a colaboração são duas áreas fundamentais para que  qualquer setor ou área de negócio funcione bem, estendendo-se aqui a “atuação das políticas públicas”: “A inovação e a tecnologia são essenciais do ponto de vista das empresas, e a colaboração para que, no seu todo, o setor funcione muito melhor”. E o objetivo que se sobrepõem a qualquer um dos setores é que Portugal consiga fazer melhor dentro da estratégia que está definida a nível nacional ou europeu e que se concentra no crescimento verde e digital: “Temos de ser capazes de fazer melhor”. A preocupação da DGAE é precisamente de “acompanhar e trabalhar em prol das empresas”, para que o ritmo do alcance dos objetivos a que o país se comprometeu seja possível. 

No que à ecomodulação diz respeito, Fernanda Dias afirma que o objetivo é discriminar positivamente aquelas empresas de fabrico de pneus que incorporam inovação e tecnologia, premiando “aquelas empresas que, na conceção dos seu produtos já incorporaram menor utilização e substância ou misturas perigosas, materiais reciclados, maior suscetibilidade para o desmantelamento e reutilização dos produtos, valorizando no fim o resíduo”. Aliás, a ótica deve assentar na certeza de que “hoje não existe lixo”, apostando na “investigação e na inovação”, de forma a “conceder produtos melhores para o ambiente e atingir as metas” e, ao mesmo tempo, “tornar mais aberta a produção com esse incentivo”, precisa.

É necessário, para além de ler a lei, perceber o seu espírito e compreendê-la para a podermos aplicar

Mudando o tema para a legislação, Rodrigo Gonçalves, diretor do Departamento de Resíduos da APA (Agência Portuguesa do Ambiente), começa por dizer que, quando se fala em prevenção, ela mesmo incorpora um conjunto lato de conceitos: “Por exemplo, podemos prevenir, reduzindo o consumo ou podemos prevenir dando maior potencial e utilização aos nosso, produtos”. No âmbito do RGGR (Regime Geral de Gestão de Resíduos) e do UNILEX, aquilo que se procura é uniformizar, refere o responsável, acrescentando que os centros de receção e os centros de recolha são dois conceitos que se pretende harmonizar no contexto dos novos diplomas, algo que nem sempre é fácil. Quando se fala em “regras”, Rodrigo Gonçalves afirma que as mesmas têm de ser “comuns a todos”, de fácil aplicabilidade e de fácil compreensão pelos cidadãos: “Trata-se de trabalho de proximidade. É importante que estas regras sejam entendidas por todos e rastreáveis, porque estamos a falar de valores que temos de saber onde estão e para onde são encaminhados”. No que à responsabilidade alargada do produto diz respeito, o responsável refere que, tratando-se de um setor com muitas especificidades, é importante o envolvimento de todos para se clarificar os aspetos necessários: “Nesta ótica da experiência que até agora o diploma nos permitiu obter é que há questões que importa valorizar e aquelas que estão menos concebidas, estamos a trabalhar em parceira para as melhorar”. 

Em matérias de legislação, Climénia Silva não tem dúvidas de que os desafios são enormes para a Valorpneu e todos aqueles que têm de interpretar a legislação, como a APA, a DGAE e os operadores: “É muito densa e é necessário, para além de ler a lei, perceber o seu espírito e compreendê-la para a podermos aplicar”. Uma das barreiras, além da sua densidade, é que a legislação traz conceitos novos, podendo ser um entrave para a Valorpneu conseguir aplicar a mesma: “É difícil entender, quando olhamos para lei e vemos que pode ser um retrocesso no nosso sistema”. Mas o foco da Valorpneu continua o mesmo: “Não perder eficiência e manter a qualidade da prestação dos nossos serviços junto dos produtores e junto dos utilizadores do sistema”, afinca.

Já Fernanda Dias refere que a preocupação da DGAE tem sido coordenar com os operadores económicos e com a equipa governamental, principalmente, a “passagem de informação de um lado e do outro” que, no fim, resultará em “modelos” a aplicar na legislação portuguesa. 

O setor está preparado para novos desafios

Abordando o impacto que a pandemia da Covid-19 teve no mercado dos pneus,  Jorge Vieira, responsável da Goodyear, em representação da CEPP (Comissão Especializada de Pneus) da ACAP (Associação do Comércio Automóvel de Portugal), afirma, primeiramente, que os produtores sempre estiveram na “linha da frente” na questão da economia circular: “Enquanto produtores e fabricantes temos procurado novos componentes que possibilitem a redução de emissões de CO2”. Passados um ano e oito meses de pandemia, o responsável refere que o impacto atingiu os níveis económico, financeiro e social. Ao nível das preocupações por parte dos fabricantes, produtores e players, foi precisamente a proteção dos seus ativos, nomeadamente com adoção de medidas preventivas para todos os colaboradores, bem como a adaptação de trabalhar em regime espelho, entre outras. A questão do digital foi algo que se antecipou: “Diz-se que as crises trazem oportunidades e o digital foi isso mesmo com a possibilidade dos players em comunicar com os clientes”, exemplifica. Apesar de algumas “interrupções”, Jorge Vieira afirma que, na generalidade, o trabalho nunca parou. E é com esta premissa que o responsável conclui, assegurando que o setor está “preparado para abraçar” os novos desafios que surgirão. 

Cristiana Macedo