Conferência dos Oceanos: “Um ponto de viragem na nossa relação e na governação global deste sistema”

Conferência dos Oceanos: “Um ponto de viragem na nossa relação e na governação global deste sistema”

“É nossa convicção de que o mar será tão importante no futuro de Portugal, como tem sido no passado de Portugal”, assegura o ministro dos Negócios Estrangeiros, João Gomes Cravinho, considerando, contudo, que o mundo está perante um oceano de profunda transformação: “Esta Conferência (dos Oceanos) impele a todos os países membros das Nações Unidas a olhar para esta realidade e a agir em conformidade e no sentido de promover a saúde dos oceanos que está em perigo”. 

João Gomes Cravinho falou, juntamente com António Costa e Silva, ministro da Economia e do Mar, na tarde desta quarta-feira, 17 de junho, numa sessão informativa sobre a Conferência dos Oceanos das Nações Unidas e eventos especiais paralelos, que se realizam, em Portugal, de 24 de junho a 1 de julho de 2022. 

Para o ministro o “nexus oceano e clima” é um dos aspetos mais decisivos que, certamente, marcará e ficará na memória da Conferência de Lisboa: “Os oceanos absorvem 80% do impacto das alterações climáticas,  estando em profunda alteração”. Esta é uma realidade que, apesar de ser reconhecida, tem sido pouco incorporada em trabalhos sobre alterações climáticas: “Só na última conferência em Glasgow é que se colocou a ligação aos oceanos e, por isso, queremos que (da Conferência dos Oceanos) resulte um nexo muito mais profundo, uma interligação mais consolidada e um trabalho a fazer nas próximas conferência sobre o clima que incorpore mais melhor os oceanos”. Outros aspeto que, ficará “associado à memória de Lisboa”, é a “nova economia azul”, traduzindo-se em “novas oportunidades, novas fronteiras da ciência” e, perante, a “obrigação de se saber conciliar” a exploração económica e a sustentabilidade: “Há aqui um imperativo de inovação que nos leva a um paradigma económico bastante diverso e baseado na sustentabilidade e na noção de aproveitamento de capital natural dos oceanos sem dilapidar esse capital”. Não é por acaso que, o Fórum sobre Economia Azul Sustentável, inserido na Conferência dos Oceanos, teve uma alta adesão ao nível mundial: “Estamos perante um quadro que há muito interesse por parte de entidades financeiras internacionais que procuram projetos interessantes: a expectativa é que Lisboa seja uma cidade casamenteira em que se encontra projetos interessante e financiamento adequada”.

No fundo, a ambição, partilhada por João Gomes Cravinho, é de que a Conferência seja “marcante para uma agenda global para os oceanos”  e que a “Declaração de Lisboa seja lembrada como um marco muito importante nesse processo”. 

A importância do Encontro foi reiterada por António Costa e Silva: “Queremos que (a Conferência) seja um ponto de viragem na nossa relação com os oceanos e na governação global deste sistema que é fundamental para a estabilidade climática na terra: ocupam mais de 70% da superfície do planeta, 90% da biodiversidade, produzem 50% do oxigénio e 14% dos alimentos”. Contudo, o dirigente alerta para o atual estado dos oceanos: “Estamos hoje em fase de um grande doença que se reflete num aquecimento significativo, nos desaparecimentos de calotes polares e da biodiversidade a uma escala nunca antes vista e na acidificação”. Estes múltiplos efeitos levam o ministro a alertar para a necessidade de um “quadro” de responsabilidade e ação: “Precisamos de ação para mudar a nossa relação com os oceanos”.

O ministro lembrou ainda que o “conhecimento”, a “ciência” e a “tecnologia” estão no “cerne” da relação com os oceanos, destacando que na Conferência (dos Oceanos), além dos programas de mitigação da poluição marinha, estará em destaque esta relação: “Temos tido uma relação cega com os oceanos baseada não no conhecimento, mas com os nossos instintos predatórios: convertemos os oceanos numa espécie de casa de banho do planeta”, lamenta. E, por isso, é tão importante um “modelo que transforme a nossa relação e de governance com os oceanos”, envolvendo plataformas de cidadãos, institutos, investigação, universidades e países de várias partes do mundo, sucinta. 

Ao nível das “biotecnologias marinhas”, António Costa e Silva lembra que Portugal vai receber mais de três mil empresários e entidades relacionadas com finanças internacionais, havendo muitos fundos para investir em atividades sustentáveis: “Queremos expor as nossas empresa e startups a esses investidores: se conseguirmos tudo isso, será um passo significativo que daremos em relação ao futuro”, remata.

Cristiana Macedo