Plástico à Vista promove “consciência” sobre impacto do lixo marinho e “possibilidades” de reutilização

Plástico à Vista promove “consciência” sobre impacto do lixo marinho e “possibilidades” de reutilização

Dolores Papa

“Plástico à Vista” (PaV) é um projeto de sensibilização ambiental com foco no “problema do plástico como lixo marinho”. Idealizado por Dolores Papa, produtora sociocultural e gestora de projetos na Associação Ensaios e Diálogos (EDA), foi desenvolvido pela associação com a “ajuda de profissionais, parceiros, voluntários e amigos incríveis”. O projeto nasceu em 2013 durante a “realização do projeto colaborativo Casa do Vapor, uma experiência de intervenção urbana comunitária que teve imenso impacto na altura e se repercute até hoje”, explica a responsável à Ambiente Magazine.

Com o objetivo de dar suporte às ações de sensibilização, a equipa do projeto criou um plano de atividades, um kit lúdico-pedagógico e uma “Miniestação itinerante de Transformação de Resíduos Plásticos” (PAVan), reunindo a metodologia de construção coletiva da EDA com as máquinas de transformação do plástico do projeto “Precious Plastic”.

O objetivo central do PAV passa por promover a consciência sobre o impacto do plástico como “lixo marinho e suas possibilidades de reutilização”. Quem aderir a esta iniciativa, vai aprender “sobre o problema do consumo e a sua ligação direta com as alterações climáticas”, enquanto participa num programa de atividades como agente ativo. “O foco é consciencializar e sensibilizar de forma divertida e participativa”, sublinha a responsável.

Todo o projeto começou com uma conversa entre Dolores Papa e a sua parceira neste projeto, Amália Buisson. Depois de um ano “marcado” por episódios de chuvas fortes em que várias casas na Cova do Vapor ficaram “partidas e devastadas”, as duas debruçaram-se sobre “que problema era transversal a todos os moradores dos bairros que costumávamos trabalhar?”. Rapidamente, as duas chegaram “ao problema do lixo e da pouca consciencialização sobre a nossa produção de resíduos”. O facto de “estarmos ao pé do mar e do rio, e quase toda a população viver relacionada com isso”, leva-as a tomar a decisão de “trabalhar o lixo, especialmente o problema do impacto do lixo marinho”. No entanto, a responsável indica que o grande desafio é “tentar tratar o tema do plástico a partir da mudança de consciência sobre o seu consumo” e não somente sobre o que “fazer com o plástico depois de ele já estar no ambiente”.

Outro dos desafios passa pelo desenvolvimento da PAVan. “Estamos a falar de uma junção de áreas”, sendo que uma grande parte das “decisões foram tomadas pela equipa no decorrer do desenvolvimento do workshop de construção EDA e também pela equipa do Fab Lab”, sublinha a responsável. Apesar do designer “que criou o Precious Plastic ter tido a atenção de publicar dezenas de vídeos em open source”, por vezes, o material não está disponível em Portugal, sendo necessário “encomendar peças de vários países, para além dos professores do IPL terem ido pesquisar motores em ferros velhos”, explica.

Equipa pretende replicar o projeto
Durante este ano, o projeto estará a circular pelos territórios da Trafaria e Costa da Caparica, na região costeira da margem sul do Rio Tejo. O plano de atividades, que engloba jogos e brincadeiras, filmes e palestras expositivas em sala de aula e em praça pública, tem como principal tema a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, seguindo-se as atividades práticas nas escolas e na itinerância da PAVan. Ainda no decorrer deste ano e incluídas no programa, estão previstas as ações de “recolha de lixo plástico” pelos participantes, algo considerado fundamental para o passo seguinte: “o desenvolvimento de peças criadas com as máquinas da “Precious Plastic” usadas na PAVan”. Com estas ações mensais, Dolores Papa acredita que “a comunidade escolar e os habitantes das regiões” serão “diretamente impactados pelo projeto”, estando planeada a elaboração de um plano para disponibilizar “todo o projeto” de forma global “para que qualquer pessoa, do Brasil ao Japão, possa replicar o projeto”.

Com estas “pequenas ações e uma abordagem bem próxima”, pretende-se dar a conhecer, a diferentes extratos da sociedade costeira, o “problema do plástico no mundo, alertando para a pouca consciência sobre a produção, o consumo e sua reutilização”. Para o desenvolvimento deste tipo de ações, o PaV vai contar com a intervenção da cientista do meio aquático, Adriana Magalhães, que aplicará “os seus conhecimentos de biologia ao contexto da comunidade e ecossistema local associado à poluição e ao lixo marinho”.

A agenda para 2019 está cheia mas a responsável diz que a equipa espera que surjam convites de câmaras, juntas ou empresas para os próximos anos. “Queremos levar o projeto Plástico à Vista a todo lado e apoiar os interessados em replicar esta experiência”.

Dolores Papa sublinha a importância das parcerias que foram “fundamentais para podermos realizar um projeto de intervenção por proximidade com a comunidade”. O PAV foi construído em “parceria e em sistema de construção coletiva”. Por exemplo, o material lúdico pedagógico “é uma parceria com a Associação Portuguesa do Lixo Marinho e com o Departamento do Ambiente da Câmara de Almada”. A Escola Superior de Educação / IPL, o Fab Lab Benfica com uma equipa de professores, alunos e ex-alunos “construíram as máquinas do zero que foram projetadas para caber na nossa PAVan, que também foi projetada do início, em sistema de Workshop de construção, com participantes locais e de vários países”, como Áustria, Brasil, Chile e Itália. O projeto foi coordenado pelos arquitetos Patrick Hubmann e Mariella Gentille.

O PAV tem os mais diferentes parceiros, desde a Junta de Freguesia da Costa da Caparica, universidades, Sta. Casa de Misericórdia de Almada, o projeto Sai e Age – DLBC 3G, os agrupamentos de escolas da Costa e Trafaria, o CCA Sun Centre, a Associação de pescadores Ala Ala, a Associação de Pais da Centenária da Costa, a Associação de moradores do 2.º Torrão, até uma startup local de eventos sustentáveis, a BeeCircular.

“Estes apoios são fundamentais em termos de fortalecimento de rede de colaboradores locais”, conclui.

Cristiana Macedo. Este artigo foi publicado na edição 80 da Ambiente Magazine.