“Precisamos de engenharia de alto nível e de engenheiros qualificados”

“Precisamos de engenharia de alto nível e de engenheiros qualificados”

A crise pandémica provocada pela Covid-19 trouxe inúmeros desafios para a coesão e para a sustentabilidade europeia. Foi em torno destes desafios que Elisa Ferreira, comissária europeia, se debruçou na sessão plenária “Resiliência e Sustentabilidade”, integrada no XXII Congresso da Ordem dos Engenheiros.

Para a comissária, as contribuições que o setor das engenharias poderá dar na busca de soluções para os grandes desafios que a Europa se defronta são muitas: “O repto mais avassalador que atravessamos hoje é a emergência climática global. Combatê-la é um imperativo ecológico, económico e social”. Mesmo antes da pandemia, a União Europeia (UE) já tinha iniciado este “sentido de urgência” quando propôs a necessidade de mudar o modelo económico, apresentando o “Pacto Ecológico Europeu” (Green Deal European), com o objetivo de  gerar um crescimento ambientalmente mais sustentável, mais inovador, mais digital e mais inclusivo: “ A pandemia veio expor de uma forma muito marcante e exacerbar as vulnerabilidades socioeconómicas dos países europeus, afetando muito em particular os trabalhadores menos qualificados, as mulheres, os jovens ou setores como o turismo, o alojamento. a restauração, os transportes, entre outros”.  Elisa Ferreira não tem dúvidas da importância das “medidas de urgência que foram adaptadas” a nível europeu, dando como a “flexibilização das regras nas ajudas de Estado”, a “suspensão de pacto de estabilidade e crescimento”, mas também a “reorientação dos fundos da política de coesão”. Contudo, apesar destas medidas terem permitido “atenuar” e “evitar” um cenário ainda pior, a comissária lamenta que a crise pandémica não deixou de “cavar assimetrias”, agravado “riscos de fragmentação e rutura”. Para combater tais barreiras, a estratégia europeia de relançamento pós-pandemia passa, sobretudo, pela “reconstrução da economia” em torno dos “novos paradigmas” da revolução digital, da transição verde, da transição climática, tentando colmatar as “fragilidades”, reforçando a “inclusão interna” e desenvolvendo as “capacidade necessárias ao reforço daquilo que se chama a resiliência europeia”, refere.

Ao contrário do que aconteceu na crise financeira, onde a reação europeia foi “lenta” e “tímida”, desta vez, a UE soube assumir rapidamente uma nova visão estratégica para a recuperação: “Conseguiu fazê-la acompanhada de recursos financeiros e instrumentos a altura desses desafios”, refere. Por isso, o pacote financeiro de apoio à recuperação económica, o Plano de Recuperação denominado por “Next Generation EU”, no valor de 800 mil milhões de euros, vai reforçar o orçamento plurianual europeu que passa assim a contar com mais de 2 biliões de euros entre 2021 e 2027: “Estes recursos vão financiar reformas destinadas a remover bloqueios, estrangulamentos ao crescimento e refazer as bases da competitividade, da convergência e da resiliência dos países estruturalmente mais frágeis ou mais afetadas pela crise pandémica”. E Portugal é um dos grandes beneficiários deste apoio: “São instrumentos que criam uma responsabilidade histórica para o país que nos próximos anos vai dispor de um volume financeiro vindo da Europa a fundo perdido da ordem dos 3600 euros por pessoa em termos médios”. E a isto acresce a possibilidade de recorrer aos programas europeus que não tem envelopes nacionais pré-definidos como o “Horizonte Europa, onde países podem candidatar projetos em regime de concorrência”, exemplifica. Ainda assim, Elisa Ferreira atenta que na “transformação” que se deseja não existem receitas pré-testadas ou pré-definidas: “Cada país deve procurar desenvolver estratégias que permitam colmatar fragilidades pré-existentes e valorizar potencialidades, integrando estes novos desígnios europeus e, depois, ajustando para esses desígnios os fundos que estão disponíveis”.

Voltando à área das engenharias, Elisa Ferreira não tem dúvidas das oportunidades que vão surgir do plano de recuperação europeu: “A UE está a dinamizar uma panóplia de iniciativas destinadas a concretizar as traves-mestras do relançamento das mais variadas formas”. Começando pela “Vaga da Renovação” (Renovation Wave), lançada no ano passado pela Comissão Europeia, e que tem como estratégia impulsionar a renovação dos edifícios, a comissária refere que serão “dezenas de milhões de edifícios que vão necessitar de ser renovados para aumentar, simultaneamente, o seu desempenho energético necessário para cumprimentos dos objetivos climáticos europeus e melhorar a qualidade de vida dos cidadãos”. Trata-se de uma vaga que estará “ancorada” em princípios de sustentabilidade, inclusão e de estética, refere. Nesta linha, surge o “New European Bauhaus” ou o “Bauhaus Europeu” que tem como objetivo transpor o plano ecológico europeu para a vida quotidiana: “Tendo uma estreita relação com a Vaga de Renovação do edificado pretende-se garantir que soluções sustentáveis, de elevada qualidade e estética são acessíveis a toda a sociedade”, declara. Também a “reindustrialização” é uma área onde a Comissão está a trabalhar, em particular, com os setores considerados mais estratégicos.

Todas as iniciativas partem de um pressuposto comum – “Build Back Better”: “Após a crise temos de deitar mãos à obra para reconstruir melhor, evitando os erros do passado, e acelerando as transições ecológicas e digitais de forma inovadora e inclusiva nos planos social e territorial”. Mais uma vez, as engenharias terão oportunidades únicas: “Nos próximos anos, iremos assistir a níveis de investimento sem precedentes na Europa, mas também para planear e concretizar estes investimentos, precisamos de engenharia de alto nível e de engenheiros qualificados”, atenta.

Apesar da geração atual ser aquela que mais desafios enfrenta, é também aquela que mais oportunidades tem para dar o salto em frente: “Conto convosco para, em conjunto, darmos esse salto e prepararmos um país e uma Europa mais capaz de acolher num ambiente são e preservando a salvaguarda do nosso planeta”.

A “Engenharia e os Desafios do Futuro” é o tema do XXII Congresso Nacional da Ordem dos Engenheiros, que começou esta quarta-feira, dia 27, e termina esta quinta-feira, dia 28 de outubro.

Cristiana Macedo