Problemáticas e alternativas associadas aos produtos menstruais

Problemáticas e alternativas associadas aos produtos menstruais

Categoria Ambiente, Resíduos

Na semana dedicada à “Menstruação Ambientalmente Saudável”, que se assinalou de 19 a 25 de outubro, a ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável – promoveu uma sessão de esclarecimento sobre a temática, cuja convidada foi Susana Fonseca, investigadora e membro da direção da ZERO. Esta sessão faz parte do ciclo de webinars “Meia Hora de Bom Ambiente”, promovido pela associação ambientalista.

À temática dos produtos menstruais podem estar associados vários problemas: saúde pública, ambiente ou desigualdades sociais e económicas. Do ponto de vista ambiental, segundo a Comissão Europeia, dos 10 objetos de plástico que mais são encontrados nas praias, os “produtos de higiene” surgem em “quinto lugar”. E, de acordo com a responsável, muito se deve à “prática incorreta que muitas pessoas seguem”, inclusive a “não colocação correta deste tipo de resíduos” . Susana Fonseca diz mesmo que se trata de um “fluxo de resíduos” que já é muito significativo: “Os têxteis sanitários já são cerca de 7% dos resíduos” globais.

Percentagem significativa de plástico

Na maioria das vezes, segundo a investigadora, aquando da utilização, não se quantifica a quantidade de plástico que pode ser encontrado nos produtos menstruais: “Podemos ter o equivalente a cinco sacos de compras por embalagem de pensos higiénicos”. E num ano, diz a responsável, pode ser o equivalente a “102 sacos de plástico” por embalagem. Já ao longo da vida, os números podem chegar quase aos “quatro mil sacos” de compras, refere.  

No entanto, há outros produtos menstruais, além dos pensos higiénicos, como os tampões. E no conjunto destes produtos, além da “percentagem significativa de plástico”, há também, “resíduos de pesticidas”, “utilização de fibras Rayon e Viscose” ou “fragrâncias desreguladoras endrónicas”, afirma a responsável. Na “quantidade de substâncias ou materiais” que são prejudiciais para o ambiente e saúde pública, Susana Fonseca chama a atenção para o facto das pessoas ou consumidores não serem informados sobre as mesmas: “Ficamos na total ignorância do que é que está dentro destes produtos que nós usamos tão regularmente”.

Produtos alternativos

Aquilo que se pretende com a semana europeia é precisamente trazer o debate para cima da mesa: “Procura-se mostrar que temos um problema e uma fonte de preocupação, mas também, falar sobre as alternativas e dar uma tónica positiva” ao tema. Tónica essa que se prende com a possibilidade de se recorrer a “produtos alternativos”, diz a investigadora, dando como exemplo, as “cuecas menstruais”, os “tampões e pensos descartáveis”, o “copo menstrual”, os “pensos reutilizáveis” ou o “aplicador de tampão reutilizável”.

E o uso de tais soluções alternativas trazem vantagens a vários níveis, começando desde logo pela “redução dos gases com efeitos de estufa” ou pela “promoção” no rumo à “reutilização”, contribuindo para a produção de menos resíduos: “Se conseguíssemos que 20% das pessoas que usam produtos menstruais mudassem para os reutilizáveis, iríamos ter, no espaço de um ano, menos de 100 mil toneladas de resíduos a ser produzidos na União Europeia”, refere a responsável. Além disso, o uso destas alternativas, vai contribuir para que haja “um contacto muito menor com as substâncias perigosas” contidas nos produtos. Das análises que foram feitas, Susana Freitas refere que “nenhum destes produtos possui concentrações significativas de substâncias perigosas” mas, mesmo assim, “estão presentes”. E, mesmo em “pequenas quantidades pode ter um efeito mais nefasto do que em maiores quantidades”, alerta.

Poupanças de 4 mil euros

Ainda com base nos estudos que têm sido feitos em torno da temática, a investigadora destaca que “muitas mulheres têm dificuldades em aceder aos produtos menstruais”. O motivo mais evidente, segundo os estudos, está relacionado com as condições económicas: “Ao usar os produtos alternativos, podemos poupar, ao longo de uma vida inteira, cerca de quatro mil euros”, declara. Mesmo que a “aquisição destes produtos reutilizáveis tende a ser mais cara”, o retorno económico será maior, a longo-prazo, uma vez que “não precisamos de comprar mais”, afirma. E uma outra vantagem associada está, segundo a responsável, no “acesso mais democrático” que a mulher pode ter a este tipo de produtos essenciais.

Enquanto ações prioritárias, Susana Fonseca destaca a necessidade de a nível europeu ou nacional se “estipular  metas de reutilização”, com por exemplo, 30% das pessoas a utilizar produtos reutilizáveis até 2030” ou de “60% até em 2060: “Só com metas é que surgem as medidas a acompanhar”, afirma a responsável, acrescentando que, tais metas, “obrigam os países a trabalhar no sentido de informar sobre as alternativas”, a “desconstruir mitos” ou a “apoiar financeiramente para que haja incentivos para que as pessoas os adquiram”. Depois, a “obrigatoriedade dos produtores” serem “muito mais transparentes” dando informações sobre o que cada produto contém, e que, na “origem retirem as substâncias que podem ter riscos” para a saúde e para o ambiente, remata.

Cristiana Macedo