Como é que a bioeconomia se pode traduzir numa vantagem competitiva?

Como é que a bioeconomia se pode traduzir numa vantagem competitiva?

Como é que a aposta e a abordagem na bioeconomia circular se tem traduzido ou se traduz numa vantagem competitiva? Esta foi uma das questões levantadas na “Conversas sobre Sustentabilidade”, promovida pelo BCSD (Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável).

O grupo Jerónimo Martins tem a bioeconomia no centro das preocupações e conta já com um trabalho vasto nestas matérias. Quem o diz é Fernando Ventura, head of efficiency and innovations environmental projects do grupo, sustentando que uma empresa tem que perceber que, para além das vendas, é necessário olhar para a origem dos recursos naturais: “De onde é que vêm, como é que são produzidos ou quais as limitações dos ecossistemas para continuar a produzir esses serviços e bens”. Portanto, “traduzir essa informação em riscos e oportunidades” é um processo que o grupo assegura: “Olhamos para a cadeia de abastecimento e identificamos os principais riscos e oportunidades e, a partir daí, o processo ainda que doloroso desenvolve-se”, refere. Um bom exemplo disso é o “desperdício alimentar”, onde a missão da empresa passa, essencialmente, por “democratizar o acesso aos alimentos com enorme foco na eficiência”, reconhecendo que “os impactos ambientais estão, acima de tudo, na cadeia de abastecimento e não tanto nas operações”. Por isso, a maioria das ações do grupo estão muito viradas para a cadeia de abastecimento, declara o responsável, destacando que, hoje em dia, o maior problema do setor primário tem que ver com a falta de escoamento dos chamados “legumes feios”. Por isso, o grupo Jerónimo Martins em parceria com os fornecedores desenvolve “novas soluções e processos”, de forma a “integrar” esses bens em produtos onde “os consumidores não veem a fiabilidade destas matérias-primas”, como é o caso das “saladas prontas a consumir”, dos “preparados para sopas” ou das “refeições prontas”. E, segundo Fernando Ventura, este conjunto de soluções permite escoar cerca de 13 mil toneladas destes produtos. Além disso, o grupo também estende estas ações ao setor primário, onde atua com a criação de gado bovino, passando a incorporar os  “legumes feios” na alimentação dos animais. Em 2019, o grupo permitiu “incorporar 9 mil toneladas”, avança o responsável, destacando as vantagens acrescidas para os produtores que “conseguem escoar os produtos e têm vendas e receitas adicionais”, ao mesmo tempo que, os animais beneficiam também de uma alimentação rica.

A questão da bioeconomia parte assim da ação interna da empresa: “Ao reconhecerem os riscos e ao identificarem as oportunidades de facto consegue-se construir parcerias no sentido de materializar os desafios da bioeconomia no dia-a-dia dos negócios”, refere. Por outro lado, atenta, esta questão exige a “criação de novos processos que não substituem os anteriores”, isto é “práticas adicionais face a tudo aquilo que já existia”.

Substituição de forma efetiva do PCC tradicional

Na The Navigator Company a bioeconomia é algo que faz, igualmente, parte do ADN da empresa. De acordo com Laura Costa, responsável pela área de ambiente da empresa, todos os materiais que utilizam na produção de produto têm sempre como princípio a “utilização de produtos menos perigosos para o ambiente e para as pessoas”. A tudo isto, segundo a responsável, acresce a “recuperação” e a “reutilização” de todos os “subprodutos” que são gerados no processo industrial: “É nesta lógica de recuperação interna que todos os materiais orgânicos que resultam dos processos de produção são utilizados em produção de energia, a partir de biomassa, evitando assim a emissão de milhares toneladas de CO2 para atmosfera”.

Usando desta premissa, a empresa tem a necessidade de dar destino a alguns materiais que são produzidos. Sendo classificados como resíduos, estes são objeto de valorização energética ou, no caso de serem resíduos orgânicos, de valorização a partir de processos de compostagem. Tratando-se de “materiais inorgânicos”, o objetivo é outro: “criar simbioses” com outras indústrias que permitam substituir os materiais fósseis pelos resíduos. Daí que, em 2019, a Navigator levou a cabo uma ação que permitiu a substituição, de forma efetiva, do PCC tradicional (carbonato de cálcio precipitado), utilizado habitualmente na produção dos papéis de impressão e escrita.

A segunda conversa, da segunda temporada das “Conversas sobre Sustentabilidade”, centrou-se no tema “Bioeconomia Circular: inovar para uma economia sustentável”.

Cristiana Macedo