“O setor da água não tem sustentabilidade económico-financeira”

“O setor da água não tem sustentabilidade económico-financeira”

Jaime Melo Baptista, presidente do Conselho de Administração LIS-Water, foi um dos oradores convidados pela APEMETA (Associação Portuguesa de Empresas de Tecnologias Ambientais) para falar sobre a “Valorização Empresarial dos Serviços de Água”. O webinar “Water 2 Business” promovido esta terça-feira, 22 de junho,decorreu ao longo do dia e debruçou-se sobre temas como a digitalização, a eficiência hídrica e a reutilização. 

Na visão do engenheiro, há uma “grande pressão internacional” para que os Estados assumam a água como um elemento-chave da sua estratégia: “São os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável), o acesso à água e ao saneamento como direitos humanos ou o Acordo de Paris: todos abordam a água, não como um fim único para os serviços, mas algo muito importante para o combater à pobreza, para a saúde, educação, o trabalho digno, as indústrias, as energias, a produção e o consumo, as cidades, as alterações climáticas, a vida marinha e a terrestre”. Jaime Melo Baptista constata que existem “externalidades importantes associadas à água e aos serviços de água” que devem estar “presentes” e que devem ser um “argumento” para a valorização empresarial nesta área: “Essas orientações internacionais estão a levar os países a procurar e a criar novas políticas públicas neste domínio, a repensar a cooperação internacional e também estão a influenciar a priorização dos financiamentos”. Neste sentido, há dois níveis de oportunidade: os serviços e os recursos hídricos. No que respeita aos serviços, o engenheiro refere que são um fator importante de desenvolvimento: “São serviços estruturais e insubstituíveis”. Aliás, reitera o engenheiro, é indispensável melhorar os mesmos em Portugal e em vastíssimas regiões do mundo, onde os níveis de prestação desses serviços são muito baixos: “Há um crescimento da população, nomeadamente no espaço urbano, que leva a problemas tremendos”. Neste sentido, Portugal pode aproveitar para ter um “papel relevante no apoio ao desenvolvimento” através dos serviços de água, tendo em conta que “tem uma experiência de 25 anos que é positiva e internacionalmente reconhecida”. Depois, pode olhar para água enquanto recurso e vê-la como um fator para a Plataforma Água Sustentável (PAS): “Juntamente com o petróleo, a água é o mais estratégico dos recursos”, refere. Já sobre a disponibilidade da água, que varia muito no espaço e no tempo, além de que está sujeita a pressões, é uma questão que tem originado inúmeros conflitos locais, nacionais e internacionais, Portugal pode ter um “papel bem mais ativo” ao nível da PAS, nomeadamente, porque é reconhecido na gestão dos recursos hídricos: “A situação portuguesa posiciona-se numa situação interessante, onde se desenvolveu muito, mas há também uma grande potencial de melhoria”. E reconhecendo que há muitos “resultados positivos”, Jaime Melo Baptista está convencido que existem “problemas estruturais sérios” no setor que necessitam de ser resolvidos: “Nos últimos anos, houve uma estagnação”. Aliás, a questão das perdas é um bom exemplo disso: “Depois de algum período de evolução, estagnaram novamente: temos que ter a perceção que é um setor que precisa de um grande esforço interno”. 

Criar uma imagem forte do cluster português da água

Um dos problemas estruturais do setor da água é que não tem, essencialmente, sustentabilidade económico-financeira: “Enquanto não houver coragem política para assumir isso e a mudança precisa, não há condições estruturais para seja o que for”, alerta. Depois, está o problema da taxa de sustentabilidade infraestrutural: “Não temos uma cultura de gestão ativos, uma boa estruturação do setor e, ainda não conseguimos níveis de agregação minimamente satisfatórios: é impensável termos operadores de pequena dimensão que nunca serão especializados nesta área atenta. A isto, acresce ainda o facto de “não existir uma boa estrutura de entidades gestoras” bem organizadas, modernizadas e digitalizadas. 

O Plano Estratégico para o Abastecimento de Água e Gestão de Águas Residuais e Pluviais (PENSAARP 2030) é, assim uma “nova visão” para os próximos 10 anos, assentando em objetivos globais, seja específicos para “a Eficácia”, “Eficiência”, “Sustentabildiade”, “Valorização da economia” e “da sociedade” através destes serviços. Trata-se de um PENSAARP que, de acordo com o engenheiro, “se preocupa com a questão da eficácia dos serviços ao nível da acessibilidade física, da continuidade, da fiabilidade e da qualidade das águas”. Também dá um grande enfoque às “questões de segurança, resiliência e ação climática”, bem como às “questões de equidade e  acessibilidade económica”, refere.

Centrando-se na valorização empresarial económica – tema principal deste painel – Jaime Melo Baptista avalia-a a três níveis: “Como valorizamos o nosso mercado interno; como valorizamos o mercado interno dos serviços de água com outros mercados e setores da atividade nacional com os quais temos pouca relação; e como é que podemos valorizar empresarialmente este setor no mercado externo”. Relativamente ao mercado interno, o responsável atenta na importância de se consolidar e dinamizar este mercado. Mesmo com as evoluções registadas, está longe do nível do que deveria estar: “Temos de perceber onde estamos com as nossas autossuficiências na cadeia de valor e as nossas faltas de autossuficiência” e “temos de ser capazes de criar novas oportunidades, expandir empresas, criar novas startups, promover competitividade, crescimento e emprego”, atenta, destacando tratar-se de uma “responsabilidade do poder central” de dar “previsibilidade ao mercado e ao setor”. Esta previsibilidade manifesta-se nos investimentos que se prevêem fazer no setor a médio prazo, dar garantias às empresas do que aí vem, de forma a “não haver enormes flutuações no mercado”, refere. A mudança na “legislação e os critérios de adjudicação” é necessária pois, segundo o engenheiro, a tendência tem sido para o “facilitismo”, onde a “adjudicação é feita ao mais barato e não há relação preço-qualidade”, algo que é “dramático em alguns subsetores”, traduzindo-se numa “instabilidade que não ajuda a ter um setor sólido”. Por outro lado, há necessidade de estudar o mercado na questão da fragilidade na sua autossuficiência na cadeia de valor: “Não podemos ficar dependentes de uma pandemia ou de conflitos e a nossa bomba ficar parada por não termos um acessório”, alerta. E, finalmente, é preciso dar valor à inovação que, do ponto de vista do responsável, é o factor que pode e deve diferenciar Portugal de muitos outros países, destaca.

Relativamente à cadeia de valor, o responsável considera que é importante “olhar para o projeto, construção, reabilitação, gestão de projetos e operação”, percebendo em “detalhe o nível de autossuficiência” e as “fragilidades”, de forma a não se ficar dependente da “falta de fornecimento” que são impensáveis e também “criar incentivos” dirigidos às entidades gestoras – agentes de mercado – no sentido de evoluir para “empresabilização” e “especialização: não se aceita hoje que uma qualquer estrutura não especializada possa fazer a gestão de serviços tão complexos como este”, atenta. Tão importante é estudar o “potencial de melhoria da concorrência pelo mercado e0 no mercado”, nomeadamente, “desenvolver mais o benchmarking”, refere. A necessidade de se estudar também novos modelos de negócio dentro do país entre o setor da água e outros setores é de extrema importância: “Temos de perceber o mercado, onde estão as possibilidades e avaliar o que temos de capacidade ociosa nos sistemas”. Aqui, a inovação é mais uma vez reforçada pelo responsável, no sentido de “valorização do setor por simbiose com outros”, bem como a “necessidade projetos piloto que sejam apoiados e subsidiados”, mostrando aquilo que é ou não “fazível” neste tipo de simbioses e “melhorar a contratualização entre entidade gestoras”.  

Ainda no objetivo da valorização empresarial do mercado, Jaime Melo Baptista destaca que o foco centra-se em aumentar o volume de negócios no estranegiro, promover competitividade, crescimento, emprego e reduzir as contas externas: “Temos de lutar por criar novas oportunidades internacionais”. Nestas matérias, o responsável reconhece o esforço das empresas portuguesas na internacionalização: “Temos de criar uma imagem forte do cluster português da água: temos condições para isso”. Além disso, o país tem também de “reforçar a articulação estratégica de internacionalização entre o Estado e o setor privado”, assim como “as próprias parcerias internas entre empresas e a cultura de parcerias”, é essencial, sustenta.

Cristiana Macedo